Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados e todo(a)s o(a)s que assistem a esta sessão ou nela trabalham, nas vésperas dos 445 anos de aniversário do Rio, Walter Alfaiate, a elegância do samba, nos deixou. Era tocante ver a emoção dele ao gravar, tardiamente, músicas suas e de outros colegas com qualidade e aquele vozeirão inesquecível. Walter foi um exemplo dessa combinação muito carioca da boemia e do trabalho, da dedicação cotidiana, da agulha, da máquina e do operário da costura. Sua alegria de viver era impressionante. Quem o conheceu achava que ele nem iria morrer, do tanto que gostava da vida. Dedico a ele, que tanto amou sua Portela, seu Fogão e os Foliões de Botafogo, a reflexão e homenagem aos 445 anos do Rio de Janeiro: RIO, 445 EM 510 Já começamos em confusão: o rio - na verdade a boca banguela da baía - foi alcançado em longínquos primeiros dias de janeiro de 1504, início do século XVI, por navegadores portugueses capitaneados por Gonçalo Coelho. A costa da Terra dos Papagaios era então esquadrinhada pelos europeus (não só lusitanos!), nos preparativos da conquista que representou o genocídio dos povos nativos. Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade, idealizou Oswald de Andrade. Antes dos marcos do cobrimento e das denominações brancas, já havia sociedade e relações: povoados autóctones precedendo a urbi que celebra, oficialmente, seus 445 anos. Atenção: o feriado do 20 de janeiro não é o de Gonçalo, nem mesmo o de Fernão de Magalhães, que chegou à baía (que apelidou de Santa Luzia) em l519: é o de São Sebastião, amotinado soldado romano, que tornou-se nosso padroeiro por milagrosamente ter ajudado os lusos na guerra final contra os franceses, já em l567. Rio de Janeiros. O que significa, então, o 1º de março de 1565? Exatamente a balbúrdia primordial: é a data da fundação portuguesa da cidade, isto é, de um acampamento militar ao pé do Pão de Açúcar, onde a terra era baixa e chã. Ao pé, na linha do mar? Há controvérsias: tudo recomendava, em tempos de acirrada disputa colonialista, erguer povoados nos morros, no cume de onde se avistava o inimigo e se garantia melhor defesa. Ali, no alto do Cara de Cão, protegida de corsários e indígenas, teria surgido então nossa cidade. De todos? Nascia a cidade legal, com certidão real, e que até o fim daquele século não juntava mais do que 4 mil almas. Antes, porém, desde novembro de l555, já se impusera outra presença: a França Antártica de Villegaignon e Bois-le-Comte. Começamos, portanto, em disputa e desolação. Na luta do rochedo contra o mar, dos mair (franceses) contra os peró (portugueses), perdiam os habitantes originais, bucha de canhão na guerra de dominação. Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro, afirmam Aldir, Moacyr e Paulo César Pinheiro, poetas do lugar. E têm razão. Aqui se resume a história de cinco séculos, com todos os seus ingredientes de crueldade, violência, afirmação, ordenamento e interesse econômico. Cidade partida desde a origem, o Rio de Janeiro, que é também de fevereiro e março, e de calendários silvícolas, nem julianos nem gregorianos, cresceu entre conflitos e jeitinhos, adaptações e rebeldias, sob o signo da cruz e da contradição. Rio do poder real e das conspirações, das arquitetônicas imitações e dos quilombos, do não à chibata, do quebra-lampiões. Capital da colônia a partir de l763, sede da Monarquia Absolutista portuguesa e do Reino Unido, Município Neutro da Corte imperial e escravocrata, Distrito Federal da República sem povo, cidade-estado da Guanabara, chegamos no início de um novo milênio como capital de estado que é uma das trinta maiores cidades do mundo, quinta da América Latina e segunda concentração metropolitana do Brasil. Rio de vários aniversários e de vários adversários. O principal é sua própria tecitura ao longo dos séculos, cerzida em desigualdade e exclusão. Hoje, quase metade das seis milhões de pessoas que aqui vivem não tem acesso a equipamentos urbanos decentes: 20% estão nas favelas esquecidas pelo poder público, 17% nos conjuntos habitacionais onde de dia falta água e de noite falta luz, 8% em loteamentos irregulares. As classes sociais, na malha urbana, seguem tendo tratamento diferenciado, e nessas carências o despótico poder paralelo e armado do comércio de drogas ilícitas se afirma, ponta da linha capitalista que sucede outra chaga de nosso passado recente: o tráfico permitido! de gente. Continuidade de horrores. Cidade teimosamente maravilhosa, porém. Construída em sítio privilegiado, erguida entre montanha e mar, lagoas e florestas, estendida nas baixadas. Primeira capital do sul, eterna capital do sol, sal de lágrimas da vida dura de tantos, mas também do suor luzidio da nossa incontrastável afrodescendência: somos mulatos democráticos do litoral, povo criativo e musical cuja alma canta e o corpo balança. Cidadãos inteiramente loucos, com carradas de razão, disse o Hollanda da Mangueira (estação primeira ou derradeira?). Kari-ocas da casa de branco, de índios, da mestiçagem boa geradora do povo da raça Brasil. Para desespero dos elitistas, não há faxina étnica que aqui prospere. Rio de virtualidades, cidade universitária, turística, da cultura, da informática, dos mil serviços, ainda não democraticamente distribuídos. Metrópole adequada como poucas para as mudanças tecnológicas que o processo produtivo impõe, desde que a lógica da cidadania sempre reclamada e muito relegada supere a lógica perversa do mercado e dos monopólios. Rio de Janeiro do Brasil, aniversariante na ressaca do carnaval: na concentração, um chamado a todos nós, seus habitantes de hoje, para fazer desfilar, com garra e graça, séculos de construção. Um enredo de engalfinhada luta pela sobrevivência e degradação da convivência, mas que também é portador de esperança para as largas avenidas do futuro. Afinal, como cantou Luiz Gonzaga Júnior, carioca do Estácio, somos nós que fazemos a vida, como der, ou puder, ou vier.
|