Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados e todo(a)s o(a)s que assistem a esta sessão ou nela trabalham, o que amamos de verdade...permanece para sempre, é nossa herança verdadeira, disse Erza Pound. Jesus Cristo, bem antes, alertava que onde estiver o teu tesouro, ali também estará o teu coração (Mt, 6, 21), conclamando-nos ao despojamento e ao amor à riquezas imperecíveis, que não enferrujam nem as traças corroem (Lc, 12, 23). Nossa atitude diante do dinheiro mostra muito o tipo de pessoa que somos, diz o Texto-Base, acrescentando que o problema não é dinheiro em si, mas o uso que dele se faz. Por isso e muito mais, a Campanha da Fraternidade 2010, que as Igrejas Católica, Anglicana, Luterana, Presbiteriana e Sirian Ortodoxa, reunidas no CONIC, desenvolvem, em ecumenismo militante, oferece grandes possibilidades de cutucar consciências e estimular movimentos pessoais e coletivos. Visa cumprir seu objetivo de fazer da Quaresma um tempo efetivo de conversão, de mudança de vida. Em primeiro lugar, a CF 2010, alertando que não se pode servir a Deus e ao dinheiro — palavras de Cristo (Mt, 6, 24) que questionam as próprias instituições eclesiásticas — , propõe uma profunda revisão de valores quanto à organização econômica da sociedade. Pretende fecundar os sistemas econômicos, isto é, as formas que as sociedades desenvolvem para prover sua sobrevivência, a partir de uma nova escala de valores, para que as coisas não nos dominem ou apequenem, gerando uma rendição diante do dinheiro, visto como valor absoluto dirigindo a vida e a própria destruição do planeta. A rigor, todo cristão deve ter uma postura anticapitalista, como prega Leonardo Boff: a economia material é totalmente diferente da economia espiritual. Na primeira, quem dá perde. Na segunda, quem dá recebe, muito. A primeira é perecível, corrompível, passageira: bens, dinheiro... A segunda se eterniza: bem, ternura, com-paixão. Revolução! A Campanha da Fraternidade está baseada em um humanismo radical, centrada na importância da pessoa ser de relações, único, irrepetível, inteligente, livre, vulnerável, efêmero e com destino transcendente, origem, foco e propósito de toda vida econômica, social e política. A partir desse sentido manifesto, o próprio conceito de economia (do grego oikos + nomos) é lembrado: administração da casa orientada para a construção do Bem Comum. A interpelação fundamental é sobre como a fé cristã pode inspirar uma economia que seja dirigida para a satisfação das reais necessidades humanas, todas elas e de todas as pessoas, sem exclusões? A CF 2010 é denúncia e anúncio: a sociedade de mercado nos afasta das raízes da árvore da vida, que são amor, dádiva, fraternidade e solidariedade. A CF denuncia a perversidade de todo modelo econômico que vise em primeiro lugar o lucro, sem se importar com a desigualdade, miséria, fome e morte. A CF anuncia o princípio do cuidado: o planeta Terra não passa de um grão de areia na imensidão do universo. Mas é um grão de areia habitado, onde pulsa um coração vivo e vibrante. Nele, o ciclo da vida se reproduz há bilhões de anos. (...) A mulher e o homem são chamados a habitar essa grande casa, a manter viva a sinfonia da criação, a cuidar, respeitar e conviver com a variedade e pluralidade das formas de vida. O ser humano foi colocado neste planeta como em um jardim do qual deve cuidar. O cuidado é uma maneira de viver diferente das relações de domínio e de mercado. Pela ganância, multidões adoecem e sobrevivem na indigência. A CF contesta a cultura do consumismo, do descartável, com a crescente criação de necessidades artificiais, exortando cada fiel a ter menos para poder ser mais. Questiona os valores elevados da dívida pública, paga em detrimento de políticas sociais universais. Revela as contradições dos ganhos abusivos de bancos. Clama contra a degradação do ambiente, lembrando que o Brasil é o quarto emissor mundial de gases do efeito estufa. Desmascara a chamada teologia da prosperidade, que transforma até a oração numa forma de comércio com Deus e condena igrejas que transformam os bens religiosos em mercadoria. A autocrítica está presente: hoje, como no passado, as comunidades cristãs devem se interrogar sobre seu patrimônio, seu uso do dinheiro e seu compromisso com a transformação econômica e social. A CF, por fim, faz propostas concretas, como a Auditoria da Dívida (dívida pública que consumiu 36% do orçamento da União em 2009, o triplo do gasto em saúde, educação, habitação, segurança pública, cultura, gestão ambiental e assistência social!), a tributação justa e progressiva (hoje, os 10% mais pobres pagam em tributos 32,8% dos seus parcos recursos, enquanto os 10% mais ricos gastam em impostos apenas 22,7% de suas rendas), a defesa do limite da propriedade da terra, da soberania territorial e da Reforma Agrária, em plebiscito nacional a ser realizado no dia 7 de Setembro, o combate à precarização das relações de trabalho e pela redução da jornada laboral sem redução de salário, a garantia do acesso à água como bem público, que não pode ser privatizado e mercantilizado. A CF elenca e apoia muitas iniciativas alternativas ao modelo, seja em micro-universos de fraternal auxílio e promoção dos desvalidos seja em crescentes redes de economia solidária. O Texto-Base, que orientou todos os parágrafos anteriores, termina com uma oração/reflexão do/sobre o Pai Nosso, que merece ser lida/rezada por todo(a)s: Pai-nosso, que estás no céu: reconhecemos Deus como Pai e criador de mundo, fonte da vida e de todo bem. Um pai que, sem distinções, quer o bem de seus filhos e filhas. Não dizemos Pai meu, dizemos Pai-nosso, e com isso assumimos que fazemos parte de uma única grande família, em que todas as pessoas têm os mesmos direitos. Esse Pai está no céu, acima de todas as criaturas. Ele olha todos os seres com a mesma ampla solicitude. Chamar Deus de Pai-nosso é um motivo de alegria e também de compromisso. Santificado seja o teu nome: quando nós, como obra de Deus, permitimos a injustiça e não nos interessamos pelo bem dos irmãos, estamos desmoralizando a obra do Criador, deixamos de santificar o nome de Deus. Não basta orar e louvar; freqüentar cultos, ler a Bíblia... Bons filhos e filhas fazem o bom nome de uma família. Santificar o nome de Deus é ter atitudes que refletiam a bondade, a justiças, a fraternidade que o Criador espera de nós. Venha o teu Reino: Jesus veio anunciar o Reino de Deus. Disse que seu Reino não era como os reinos deste mundo, onde os mais poderosos querem tudo e desprezam os pequenos. Os benditos do reino são as pessoas que socorrem os irmãos em todas as necessidades, as que partilham, as que promovem a justiça. Ao falar de ambição e poder, Jesus pediu: Entre vocês não seja assim (Mt 20,26). É muito incoerente pedir que o Reino de Deus venha e não agir de acordo com os valores desse Reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu: Seria absurdo imaginar um céu com pessoas que acumulam todos os bens e deixam a multidão sem nada. Para a terra ficar cada vez mais parecida com o céu, junto com Deus, temos que criar um mundo mais fraterno, promover a justiça, distribuir melhor o que deve ser de todos. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje: O pão representa o essencial para viver, não o supérfluo. Pedimos o pão nosso, não o meu pão. E pedimos o que precisamos para cada dia, não para acumular. Esse pedido nos compromete tanto com a partilha como com um consumo mais simples. Quando todos tiverem o pão de cada dia e respeitarem esse direito, sem fazer exceções, a humanidade será mais feliz. Perdoa-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido: outras versões do Pai-Nosso chamam essas ofensas de dívidas, usando um termo da economia. Ofendemos a Deus e ficamos em dívida com ele quando vivemos de modo a prejudicar o irmão. E Jesus nos diz: perdoa se queres ser perdoado. Em outras palavras: nossos acertos de conta com Deus só podem ser feitos através de uma atitude justa, fraterna e solidária com o nosso próximo. E não nos deixes cair em tentação: as tentações do consumo irresponsável, da acumulação exagerada, da exploração dos mais desamparados nos cercam o tempo todo. Para não cair em tentação precisamos estar atentos às consequências do que fazemos e do que deixamos de fazer. Mas livrai-nos do mal: o maior mal é afastar-se de Deus e desconsiderar a dignidade do ser humano, perder o rumo é não se importar com o sofrimento das outras pessoas, é se fechar num comportamento egoísta, pouco fraterno e pouco solidário. Pois teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém. O Reino, o poder e a glória de Deus são diferentes daquilo que este nosso mundo chama de sucesso. Mostraremos ser cidadãos desse Reino, testemunhas do poder e da glória de Deus, vivendo realmente como família solidária, sem nenhum culto a outros senhores como o dinheiro, a nossa vaidade, o egoísmo que desvalorizam os outros filhos de Deus nosso Pai. Agradeço a atenção.
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