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O tradicional bondinho carioca e o acidente
Ter, 18 de Agosto de 2009 01:00
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Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, e todos os que assistem a esta sessão ou nela trabalham: Moro em Santa Teresa, bairro no centro Rio de Janeiro, de notável comunidade humana e belíssima arquitetura. Um lugar bom demais de se viver! Mas todos nós estamos enlutados. Um acidente no final da manhã de domingo tirou a vida de Andreia de Jesus Veloso, jovem professora da rede pública, de 29 anos. Ela estava curtindo a beleza das ruas e da vida, despedindo-se das férias escolares num dia ensolarado, na placidez do nosso tradicional bondinho, e agora não está mais entre nós. Uma existência ceifada por erros humanos, estúpidos, evitáveis.

O acidente começou com um táxi atingindo o bonde recém-reformado, que, sem força nos freios, começou a descer uma ladeira da rua Paschoal Carlos Magno de ré. Um ônibus subia e, apesar dos esforços do seu motorista, os dois veículos pesados se chocaram na lateral, violentamente. Dez pessoas ficaram feridas, mas Andreia, que teria sido projetada para fora do bonde pelo impacto, faleceu.

Por isso, é chocante ouvir o Secretário Estadual de Transportes, Júlio Lopes, dizer que se o sistema de freios tivesse falhado, teria havido uma catástrofe maior. O que pode ser maior que a perda de uma vida humana nessas condições?
Exigimos apuração rigorosa e célere de todos os fatos e pessoas que provocaram essa tragédia. Há uma responsabilidade coletiva: dos que mal organizam o sistema de trânsito naquele bairro tão singular, dos que reformaram os bondes - que se encontram ainda em fase de testes -, dos motoristas imprudentes e irresponsáveis, que não atentam para os cuidados necessários em ruas estreitas. Os condutores do bonde e do ônibus, de maneira quase heróica, fizeram o que estava ao seu alcance.

O governador Cabral apressou-se em livrar-se do problema, e quer passar a responsabilidade do sistema de bondes para a Prefeitura. Que a municipalização não signifique privatização ou mesmo extinção dos bondinhos, tão desejada pelos progressistas do caos urbano e da cidade onde só o que dá lucro tem valor! Que a comunidade, através da Associação de Moradores de Santa Teresa (AMAST), seja, afinal, ouvida. Ela, em fevereiro, entrou com ação civil pública contra esses testes da modernização de risco. Seus alertas, respeitados, poderiam ter evitado a desgraça. Sua pauta de reivindicações, sempre voltada para o interesse público, precisa ser atendida. O Ministério Público também tem que se pronunciar sobre os contratos do estado com a empresa T´Trans, que reformou os veículos.

Já me coloquei, como deputado federal e cidadão morador do bairro, à disposição do Prefeito Eduardo Paes, a fim de que o nosso sistema de bondes seja, como deve ser, sinal de vida, cultura e história, e não de desprezo pela dignidade humana, irresponsabilidade e morte.

Em memória de Andreia, professora de História, e pelos direitos da cidadania, vamos recuperar de vez esse monumento móvel histórico, que, com seus dedicados trabalhadores e com gestores mais qualificados, pode e deve servir ao povo do Rio e do Brasil.

Agradeço a atenção,

Sala das Sessões, 18 de agosto de 2009.

Pronunciamento Dep. Chico Alencar