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Campanha da Fraternidade: economia e vida, uma mesma questão. Dep. Chico Alencar
Ter, 23 de Março de 2010 14:38
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Caríssimo Luiz Alberto; meu compadre, Dom Mauro Morelli; Padre Ernanne, que desde a profética gestão de Dom Helder Câmara, em Recife, Olinda, ensinava-me a não separar fé e política, este é um momento efetivamente solene, porque nós buscamos neste espaço juntar a dimensão sagrada, transcendente, à dimensão imanente, material, concreta das nossas vidas.
Hoje, vindo para cá, do Rio de Janeiro, vi como economia e vida são uma mesma questão. Estudos da ONU indicam que a água suja, a falta de saneamento, mata mais do que as guerras. Durante esses 7 minutos em que cada um de nós falará, pelo menos 21 crianças com menos de 5 anos de idade morrerão no mundo por falta da acolhida.
Dom Mauro falava dos profetas da Bíblia, exaltando o compromisso daquelas sociedades pretéritas com a criança. Sem a criança, o idoso inclusive não tem alegria de viver. O mundo de hoje, na organização da economia de mercado, da economia sob o êmulo do lucro, está matando agora, nestes 7 minutos que usarei aqui, nada menos do que 21 crianças com menos de 5 anos de idade. Isso é uma tragédia, porque o saneamento básico tem a ver com políticas públicas e o uso adequado dos recursos. No entanto, em geral, é obra invisível, não aparece muito e não permite inclusive dividendos eleitorais; e é obra barata, que não interessa ao modelo econômico dominante.
Creio que todos nós que estamos aqui — e eu, sendo chamado a debates, principalmente no Rio de Janeiro, sobre a Campanha da Fraternidade, acabei por produzir aqui um pequeno documento — concordamos com o Teólogo Leonardo Boff, que, no primeiro parágrafo da página 3 desse folhetinho que minha equipe de colaboradores trouxe, diz o seguinte:
A economia material é totalmente diferente da economia espiritual. Na primeira, quem dá perde; na segunda, quem dá recebe muito. A primeira é perecível, corrompível, passageira: bens, dinheiro... A segunda se eterniza: bem, ternura, compaixão.
Isso é uma verdadeira revolução se olharmos os elementos fundantes da cultura capitalista, baseada no lucro, na acumulação de bens, na competição desenfreada e na exploração do trabalho. Por isso, a Campanha da Fraternidade Ecumênica — e espero que seja sempre e não apenas a cada 5 anos — é revolucionária, pois cutuca os fundamentos do nosso modo de viver, estimulado pela ideologia do consumo contínuo como sentido de vida, e da própria sociedade.
O velho Sócrates — não o futebolista quase meu conterrâneo, de Ribeirão Preto — , filósofo, gostava de passear nos mercados da antiga Grécia para depois comentar como era importante ver tanta coisa da qual ele não necessita para viver.
Se lá atrás essa ideia de que ser é ter e compro, logo existo era forte, hoje em dia é muito mais. O consumismo como sentido de vida nos domina fortemente, e a Campanha da Fraternidade, nesse período quaresmal, propõe uma Páscoa da ressurreição com uma profunda revisão dos nossos valores, do sou o que compro, sou o que tenho, só existo se eu puder ir aos novos templos do mundo moderno, que são os shopping centers.
Por outro lado, a campanha também vai fundo e questiona as bases do sistema econômico predominante no mundo. A ideia da ambição, da ganância, está vinculada ao sistema capitalista,e, no texto base, temos uma análise dessa realidade que acaba produzindo uma sociedade de exclusões
Por fim, vemos que há um questionamento das próprias igrejas na sua absoluta e necessária autocrítica, inclusive de uma certa teologia da prosperidade que diz que a pessoa é abençoada por Deus na medida em que acumula, ganha e vai gerando uma gordura no seu coração que tira a sua própria solidariedade.
A campanha também examina a realidade do Brasil, destacando que 36% do orçamento da União no ano passado foram gastos com juros e serviços da dívida pública, hegemonia do capital financeiro, o que soma 10 vezes mais do que foi gasto em gestão ambiental, educação, saúde, transportes coletivos e habitação. Isso é gravíssimo, uma profunda distorção!
Há um Pai Nosso belíssimo, escrito nesse espírito ecumênico da Igreja Anglicana, da Igreja Presbiteriana, da Igreja Luterana, da Igreja Siríaca Ortodoxa e da Igreja Católica, que pega a dimensão profunda não do Pai meu, nem do pão meu, mas do Pai Nosso, do pão nosso, que só será nosso efetivamente se for repartido; e um Deus que não é um Deus, lá em cima, tomador de conta, cruel, vingativo, mas um Deus que se realiza através da nossa capacidade de amar no plano individual e também no plano social, construindo um mundo fraterno e justo.
Muito obrigado. (Palmas.)