| Ivan Valente discursa sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos |
|
|
|
| Qua, 03 de Fevereiro de 2010 19:20 | |||
|
“As reações ao PNDH 3 começaram nos setores militares e ganharam os ruralistas latifundiários, os donos da mídia, empresários e grupos mais conservadores entre os católicos, setores que, também historicamente, são refratários aos avanços exigidos pelos movimentos de defesa dos direitos humanos”, afirmou no discurso. Leia a íntegra do pronunciamento do deputado Ivan Valente.
A ofensiva conservadora contra o PNDH-3 e o recuo do governo Sr. Presidente, Sras e Srs Deputados,
No retorno aos trabalhos desta Casa, venho à Tribuna para tratar de um tema que esteve entre os mais debatidos, na opinião pública e dentro do governo, neste último mês: a terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), lançado pelo governo no dia 21 de dezembro de 2009. Nos últimos anos, não se viu tamanha atenção dos grandes meios de comunicação a uma ação do Estado brasileiro relacionada à política de direitos humanos. Por um lado, o debate público sobre o tema é fundamental. Mas o que vimos foi a manifestação de uma ofensiva conservadora e autoritária, que negou, mais uma vez, espaço para que as vozes caladas historicamente fossem ouvidas neste debate. As reações ao PNDH 3 começaram nos setores militares e ganharam os ruralistas latifundiários, os donos da mídia, empresários e grupos mais conservadores entre os católicos, setores que, também historicamente, são refratários aos avanços exigidos pelos movimentos de defesa dos direitos humanos. Da imprensa, veio uma manobra espetacular, que conseguiu transformar defensores da liberdade em terroristas e lutadores da democratização dos meios de comunicação em censores e violadores da liberdade de expressão, numa aliança sinistra entre quem tem privilégios hoje e quem tinha antes. Tiveram a audácia de dizer que monitorar veículos que, em sua programação, violam direitos humanos - sem qualquer forma de responsabilização, como prevê a Constituição brasileira - significaria um ataque à liberdade de imprensa.
Esta democracia, no entanto, Sr. Presidente, não se concretizará se não preenchermos as lacunas, reescrevendo o passado e completando o quebra cabeça da nossa história. Devemos nos perguntar qual a memória coletiva sobre a ditadura militar que queremos para o Brasil. Do contrário, sem jogar luzes sobre a tortura do passado, sem abrir os arquivos da ditadura militar, ainda veremos alguns justificar aquele período de violência como ditabranda e os que insistem em classificar o triste golpe de Estado como revolução, e principalmente, seguiremos longe da tarefa de banir, de vez, a tortura das práticas dos agentes estatais brasileiros
É isso o que exigem os setores democráticos da sociedade brasileira, que mais uma vez decepcionaram-se profundamente diante do recuo do Presidente Lula às pressões dos militares, de ministros como o senhor Nelson Jobim e da grande mídia. Na última hora, o presidente voltou atrás, recomendou que "pontos polêmicos" no conjunto do Programa fossem abrandados e jogou a responsabilidade da Comissão da Verdade para este Congresso. Abafando as disputas internas no governo e negociando um acordo com o que há de mais autoritário neste país, o Presidente da República, em ano eleitoral, deixou claro como seguirá cedendo aos interesses privados das classes dominantes do Brasil.
Nós, do PSOL, rechaçamos tal postura e assumimos o compromisso público de seguir esta batalha na Câmara dos Deputados. Fazemos isso em respeito à memória não só daqueles que tombaram lutando contra a ditadura militar, mas de tantos brasileiros e brasileiras que, cotidianamente, enfrentam o poder de poucos estabelecido neste país para fazer valer os seus direitos.
Muito obrigado.
|












