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Chico Alencar discursa sobre decisões políticas por conveniência eleitoral
Qua, 23 de Junho de 2010 17:59
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O deputado Chico Alencar, em discurso durante sessão do Congresso Nacional, na manhã desta quarta-feira 23, falou sobre os descaminhos do Partido dos Trabalhadores, que na imposição em apoiar certos candidatos desconsidera convenções estaduais, como acontece no Maranhão.

“Isso do ponto de vista da análise política, mas em geral é sempre negativo na medida em que precisamos de alianças programáticas, critérios, uma política mais elevada e não a pequena política do cálculo meramente eleitoral”, disse Chico Alencar.

O PT maranhense decidiu apoiar para o governo do estado o deputado federal Flávio Dino. Entretanto, a executiva nacional petista interveio para lançar Roseana Sarney e manter a oligarquia da família naquele Estado. O deputado Domingos Dutra (PT/MA) e o líder camponês Manoel da Conceição, que fundou o PT na década de 1980, fizeram grave de fome contra a decisão da Executiva.

Leia a íntegra do discurso.

 

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, todo(a)s o(a)s que assistem a esta sessão ou nela trabalham, por mais que já conheçamos os descaminhos pelos quais o PT, aquela bela construção partidária dos anos 80, enveredou, sempre que novas (e velhas) crises surgem neste partido nós revemos nossa própria história recente, de rompimento com um coletivo que não respeitava mais seus próprios princípios.

Leonardo Boff, em seu artigo “Solidariedade para com as vítimas do novo PT”, diz que o partido “trocou o poder da vontade de transformar a realidade pela vontade de poder para compor-se com a realidade, notoriamente envenenada com o propósito de perpetuar-se no poder.” Para exemplificar essa mudança, Boff resgata as palavras de Fernando Pimentel, pré-candidato ao governo estadual eleito em prévias do PT em Minas Gerais - depois invalidadas, em nome da aliança com o PMDB: "o PT novo é o PT que faz alianças e convive com a realidade política brasileira, buscando transformá-la... Não somos mais um partido que coloca a ideologia como uma máscara, como óculos escuros para não enxergar a realidade política; operamos com a realidade política do jeito que ela é, para transformá-la"(O Globo 12/6/2010).

Leonardo Boff traduz esse discurso de disfarce: “a ideologia básica do PT originário era a ética e as reformas estruturais. O novo PT entende este propósito como uma máscara que não permite enxergar a realidade política do jeito que ela é. Sabemos como é o jeito da política vigente, montada sobre alianças espúrias, sobre a mercantilização das relações políticas e sobre a rapinagem do dinheiro público. Pimentel ainda acredita que com as alianças se pretende transformar a realidade. Como se para transformar uma gangue de bandidos se devesse fazer parte dela. A ética foi enviada ao limbo e em seu lugar entraram os conselhos de Maquiavel. Este teve um propósito semelhante ao da Direção do PT: ‘ir diretamente à verdadeira realidade das coisas e não ater-se a representações imaginárias’ (c.XV). Para Maquiavel a verdadeira realidade das coisas é a busca tenaz do poder, as formas de conquistá-lo e de conservá-lo. E aí vale tudo; os fins justificam todos os meios: o perjúrio, o crime e até o bem se ele trouxer vantagens. As ‘representações imaginárias’ é a ética, o que deve ser. Ela não é posta de lado; até vale desde que favoreça o poder. Caso contrário pode ser atropelada: ‘não se afastar do bem quando se pode, mas saber usar o mal, se necessário’ (c.XVIII).

O importante não é ser bom, mas parecer bom. Não há porquê cumprir a palavra empenhada se ela se volta contra o príncipe, pois ‘jamais faltarão motivos legítimos para justificar o não cumprimento de algo apalavrado’(c.XVIII).

Do alto de sua ‘ciência do transformismo político’, Fernando Pimentel conclui: ‘nesse processo de renovação, alguns companheiros vão ficar no passado’. E cita Sandra Starling, Plínio de Arruda Sampaio...

Estes, na verdade, são os portadores do futuro porque são fiéis à ética e ao sonho de uma política diferente do jeito como é feita. É ainda o insuspeito Leonardo Boff quem denuncia: “a Direção do PT se rendeu, fazendo alianças escandalosas para se perpetuar no poder, assim se atolando no passado. O povo não merece ser defraudado desta forma. Não é investindo em políticas assistenciais que se pode substituir-lhe a dignidade.” O sociólogo e assessor da CNBB, Pedro Ribeiro de Oliveira, também mantém acesa a chama da crítica nesses tempos de adesismo fácil e inércia intelectual “quem perde sua base social não toma o poder, mas é tomado por ele. Passamos 20 anos construindo o PT e ele nos foi arrebatado por um bando bem articulado de amantes do poder, com a cumplicidade de companheiros cuja lealdade pessoal ao Lula inibe qualquer oposição efetiva. O problema, hoje, é que os verdadeiros partidos são as ‘bancadas’ do Congresso e elas reúnem políticos dos mais diversos partidos no momento das eleições”.

Vale, como homenagem e chamamento a reflexão, lembrar José Saramago (1922/2010), escritor maior da Língua Portuguesa, insubmisso no estilo e nas causas, que nos deixou semana passada. Para o Prêmio Nobel de Literatura, sempre devotado à causa dos oprimidos da terra, a crise que fez desmoronar a União Soviética e seus países satélites não era a crise do modelo socialista de sociedade: “a ideia de socialismo está muito viva, e brevemente os países verão como o capitalismo é uma falsa promessa. O que precisa ser reformada é a mentalidade socialista. Sem uma 'alma socialista' nenhum socialismo resiste”. No Brasil, há “socialistas” que perderam a alma. Ou pior: a venderam ao diabo.

Agradeço a atenção.