Você está aqui:   Início > Artigos >
Banner
Por que eu ?
Qui, 05 de Março de 2009 00:00
AddThis Social Bookmark Button
Por que eu?

 

Cesare Battisti

 

Brasília, 18/02/2009

 

Mesmo que eu nunca tenha acreditado, como disse Voltaire, que nos vivemos em um mundo onde se vive ou se morre "com as armas à mãos", a ironia do destino fez com que hoje, eu me encontre condenado por quatro homicídios.

 

A minha situação é terrível. Eu fico amedrontado desarmado, frente a hostilidade ao ódio rancoroso que manifestam meus adversários. Eu sei que deveria lutar contra a avalanche de mentiras, de falsificação histórica, mas o que me faz falta para lançar-me na luta é o desejo de ganhar. Ganhar o que?

 

Meus adversários, ao contrario de mim, parece que tem algo a defender. Quem sabe a sua miséria ou riqueza ou talvez, como no caso de alguns atuais ministros do Governo Italiano, manter escondido o passado deles em quanto artistas de extrema direita (fascista), responsáveis direta ou indiretamente dos massacres a bomba.

 

Eu não sei exatamente o que motiva meus adversários a entrar nesta luta, mas com certeza não é a sede de justiça.

 

Da minha parte, eu não pretendo fazer-me o defensor de tudo o que aconteceu nos sangrentos anos 70. Estamos em pleno seculo XXI, não tenho mais verdades absolutas sobre a sociedade ideal, e eu não sou tão importante a ponto de defender o que de bom havia nos sonhos daqueles anos.

 

Não posso jogar-me em uma guerra dessa. Eu diria mais tampouco sou muito inteligente, ao ponto de criar tantos inimigos; se incomodei tantas pessoas importantes, isso foi sem duvida o resultado de minha inconsciência.

 

A verdade é que não fiz nada para evitar tantos problemas, mas ainda fico por compreender, como fui capaz de conseguir resultados tão desastrosos. Resta, de todo modo, a questão: por que tanto ódio? Não é para esquivar-me, que eu me declaro incompetente e deixo a resposta para esta pergunta a pessoas mais inteligentes, aqueles que não acostumam assumir o papel de "anjos vingadores".

 

Esta interminável perseguição e toda essa historia dos anos 70 italianos, é uma longa agonia, um lamento de vergonha deitado sobre o papel amarelento dos justiceiros. Isto é, a expressão de um rosto corroído por uma doença nervosa, como um pecado original que macula o corpo político italiano.

 

Coitada da Itália de Dante, de Beccaria, Bobbio e Umberto Eco. Coitada da pátria varrida pelo vento do orgulho, do cinismo e da vida de quem lhe impede de reconhecer os próprios erros, os próprios pecados, de não querer rebaixar- se ao nível desses países latino-americanos, admitindo corajosamente que também eles sofreram na mesma época uma guerra civil de baixa intensidade (ler as declarações do ex- presidente da Republica o Senador Francesco Cossiga) e que para combatê-la recorreram a toda sorte de ilegalidade.

 

Alem de dezenas de presos políticos enterrados vivos nas cadeias italianas, há centenas de outros refugiados no mundo inteiro. Temos aqui no Brasil o caso de um extraditando italiano pertencente a uma organização nazi-fascista e envolvido no atentado de Bologna, 82 mortos.

 

Estranhamente, a Itália não faz menção desse caso, nao faz protestos nem chantagem ao povo brasileiro. Por quê? Por que a Itália não agiu da mesma maneira quando Sarkozi negou a extradição de Marina Petrella da Franca e cuja situação penal supera de longe a minha? Por que esta obstinação feroz contra mim enquanto não se fez nenhum protesto para a extradição negada dos outros quatro italianos também condenados por homicídio? Sera que minha atividade de escritor e jornalista pode ser um perigo para a manipulação histórica daquela Itália governada pela máfia? Não sei.

 

O que é certo e que, com todos os esforços eu não consigo agir diante desses ataques virulentos contra mim. Não posso identificar a imagem de mim que eles me devolvem e associar esse reflexo lamentável a minha identidade social.

 

Podem continuar dizendo que eu sou "terrorista", "assassino" etc., de todo modo, eu não consigo pensar em mim como alguém capaz sequer de um centésimo de tudo o que me atribuem.

 

E curioso observar a reação das pessoas que por alguma razão chegam a ter um contato comigo: agentes penitenciários, outros presos, visitas e até mesmo meus advogados. Logo nos primeiros minutos de conversa, leio nas suas expressões um "quê" de decepção. É como se estivessem pensando: "então e esse ai, o perigoso terrorista?! É justamente assim, que as pessoas exclamam quando me encontro em situações similares, frente àqueles que não conseguiram evitar o bombardeio midiático, principalmente da "imprensa marron", que tudo faz na tentativa de interferir negativamente nas decisões judiciais.

 

Fico perplexo, surpreso e incomodado por tudo que estou provocando, e sem dúvida, acabo por parecer um pouco bobo, com ar distraído e ate incrédulo ao ver que o sujeito em questão sou eu. Isso porque eu nunca tive sentimento, quando se tratou de contestar as acusações, de agir pela minha própria defesa.

 

Eu fico ainda com a impressão de que restabelecendo a verdade histórica, os fatos, não faço outra coisa, do que cumprir um dever cívico. Eu gostaria de gritar a verdade ao povo italiano e brasileiro, mas como fazer isso? Pois a multidão manipulada se tomou linchadora e convencida sobre a nossa perdição.

 

A fera que se esconde atrás da massa, de sorriso de circunstância, de palavras vazias e que só espera a primeira oportunidade para revelar-se, eu a conheço bem. Já antes que me apontassem, em particular, eu sabia que uma hora ou outra chegaria meu tempo.

 

E eu deixei falar. Deixei me tratarem de assassino, ladrão estuprador e muitas outras coisas. Eu deixei fazerem tudo isso não por negligência ou por superioridade, ou ainda por me achar invulnerável a esses insultos ou por que falam de mim, bem ou mal que seja. Não, se eu não protestei vigorosamente contra tais obscenidades, foi só porque de alguma maneira eu fico sendo um otimista. Inútil ter a consciência de que quando a multidão se reúne, faz sempre contra alguém, esse mesmo que os há colocado de acordo desde o início.

 

Esse alguém e a rejeição de uma molécula dessa multidão que geralmente algum dia o havia idolatrado. Mesmo se nos meus raciocínios eu me levanto com razão contra os baixos instintos da multidão manipulada, ainda não perdi as esperanças de que uma luzinha pode de repente acender-se no meio dessa gente para trazê-las de volta ao mundo dos seres pensantes e dos espíritos livres. Minha atitude pode parecer suicida, ao menos contraditória, mas esta e parte integrante da idéia que eu tenho das raz6es que me lançam na aventura de escrever.

 

Pois é bem verdade que antes de ser transformado em monstro eu fui um escritor. Enfim, as autoridades italianas de hoje me perseguem, como explicar isso, como explicar esta Itália, a mesma que me transmitiu um dia o amor às palavras escritas, esse sonho de liberdade e de justiça social, que fez de mim um homem, e agora um pestilento?

 

Como explicar essa Itália que esqueceu sua recente pobreza, seus imigrantes tratados como cachorros que morriam nas minas belgas, alemãs e francesas. Que esqueceu seus fascismos, nunca enterrados, sua tentativas de golpe de Estado, a máfia no poder, a estratégia da tensão, gládio, as bombas do serviço secreto nas praças publicas, as torturas aos militantes comunistas, esses mesmos que não obstante os erros rasgaram sua vida para contribuir a fazer da Itália um pais a altura da Europa e que hoje, 35 anos depois, são tratados de terroristas, e alguns deles apodrecem ainda nas "prisões especiais".

 

Seria esta Itália, cujo chefe de governo foi um excelente membro da celebre loggia P2, e que hoje decreta leis racistas. É esta a Itália que se recusa a lavar a sua roupa suja em publico?

 

De toda maneira, a história não se julga nos tribunais, nossos juízes só podem ser os que ainda virão lutando para uma sociedade justa. Pois somente eles nos julgarão imparcialmente.

 

A verdade dói, mas ela esclarece. Nossa história recente nos mostrou o erro e o engano da inquisição fazendo com que cicatrizes jamais esquecida devessem ser reparadas e assim reconhecessem os excessos cometidos diante da verdade singular imposta. De nada adianta varrer a sujeira para debaixo do tapete. Mais cedo ou mais tarde a sujeira vai aparecer.

 

Reconheço que fiz parte de urna página da história que foi escrita a sangue, suor e lágrimas, e espero que hoje meus adversários reconheçam que jamais os algozes ficaram sem sua paga. A história sempre se mostrou implacável com aqueles que tentam suplantar e esconder seus erros.

 

Vivemos uma era democrática, barreiras e muros foram derrubados, conceitos foram revistos, será que não chegou a hora da Itália mostrar seu lado cristão? Pois o perdão é um ato de nobreza. Se sou considerado inimigo da Itália, até os inimigos fazem trégua e se perdoam.

A história fez sua parte, e proporcionou à Itália uma era de progresso e desenvolvimento, espera-se que aqueles que fizeram da Itália a Itália de todos sejam reconhecidas a sua importância e o papel fundamental que tiveram no restabelecimento do Estado Democrático de Direito, ainda que não compreendidos, mas foram essenciais.

 

Itália, Itália, que mata o sonho dos teus filhos e fecha os olhos aqueles que te defenderam, nunca é tarde para um gesto de nobreza, a exemplo do Vaticano em reconhecer suas atividades durante a inquisição. As caças às bruxas acabaram. "Faça-se justica, não depois de perecer o mundo, mas justamente para que ele não pereça!".

 

A sociedade sofre muito mais com a prisão de inocente do que com a absolvição de um culpado.

Cesare Battisti