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Truculência Petista
Ter, 04 de Dezembro de 2007 01:00
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TRUCULÊNCIA PETISTA

O preço do silêncio

Araceli Lemos é historiadora, ex-deputada estadual e presidente do PSOL/PA

Há mais de dez dias o governo Ana Julia tem guardado total silêncio diante das denúncias de que lavradores teriam sofrido torturas durante a chamada Operação Paz no Campo, deflagrada a partir de 19 de novembro em ampla região no sul do Estado. À nota pública lançada do dia 21 pela CPT, SDDH e Fetagri - denunciando que além de prisões ilegais e despejo de dezenas de famílias, policiais espancaram cruelmente vários trabalhadores em busca de supostos "depósitos de armas" - caiu no profundo poço de silêncio governamental. Nada, absolutamente nada foi dito em resposta. É como se jamais tenha existido. Um comportamento de censura que se adapta como uma luva aos métodos de estado de sítio que foram empregados durante a ampla mobilização de tropas para desalojar sem-terra.

Não soa estranho, porém, que a ação do governo do PT, com auxílio de tropas do Exército e de equipes da Polícia Federal, tenha recebido manifestações públicas de apoio por parte justamente dos setores mais retrógrados e suspeitos de envolvimento na organização de milícias privadas a serviço dos fazendeiros da região. É isso que transparece na nota oficial publicada nos jornais de grande circulação na quinta-feira (29), assinada pelo suspeitíssimo Sindicato Rural de Redenção e uma dezena de entidades patronais ou afins, expressando à governadora Ana Julia o "reconhecimento pela Operação Paz no Campo" que teria sido deflagrada para assegurar a "paz, segurança, direito de propriedade, direito de ir e vir de todos os cidadãos e absoluta tranqüilidade para o progresso deste Estado e da região".

De que paz falam os ruralistas? Talvez se refiram à paz dos cemitérios clandestinos, espalhados em tantas "propriedades produtivas" da região.

De que progresso falam as entidades patronais do sul do Pará? Talvez estejam fazendo referência a um certo tipo de crescimento econômico concentrador de renda e de poder, em cujo DNA traz marcada a nódoa do trabalho escravo e da degradação socio-ambiental.

De qualquer forma, não se pode admitir que um governo eleito sob a esperança de mudanças se vergue, em tão pouco tempo, às pressões do latifúndio e do agronegócio, partindo para a criminalização dos movimentos sociais e, nessa esteira, comece a compactuar com os velhos métodos das brutais violações de direitos humanos.

O silêncio oficial está se transformando em cumplicidade com os crimes denunciados pelas entidades defensoras de direitos humanos e ratificados pela insuspeita voz do bispo de Conceição do Araguaia, Dom Dominique You, que alertou, em outra nota pública lançada no domingo passado, para o fato de que a violência da operação policial na desocupação da fazenda Forquilha, em Santa Maria das Barreiras, "desonraram as forças que a conduziram". Não se trata de "Paz no Campo", mas de "Terror no campo", porque não se pode "falar em paz sem justiça", diz o bispo católico.

Antes que esse episódio produza uma nódoa irreparável em seu governo, que Ana Julia quebre o silêncio e responda abrindo um inquérito para identificar todos os policiais envolvidos nas violências, para que sejam punidos exemplarmente. Ou faz isso, ou passará a receber, cada vez mais, elogios públicos das forças que historicamente estão comprometidas com a violência e o massacre dos pobres nas ensangüentadas terras paraenses.