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Lutar com palavras
Qua, 28 de Novembro de 2007 01:00
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LUTAR COM PALAVRAS...

Chico Alencar

28/11/2007

Na vida agitada de um parlamentar federal - que batalha para estar no time dos que trabalham! - a ida ao interior é "um pouquinho de saúde, um descanso na loucura" (Guimarães Rosa). Para mim, em especial, Santa Rosa é tempo de ficar "absoluto", sem agenda, sem relógio, sem gravata, sem nada que prenda, apresse ou enforque. É época que voa, mas que permite jogar conversa fora, rever amigos de infância, trocar estórias, compartilhar saudades e até fazer um golzinho combinado num joguinho ameno, próprio para a terceira idade.

Vem de longe essa sina: virando adolescentes, sob um sol que se repartia em "espaçonaves, guerrilhas e Cardinales bonitas" (Caetano Veloso), as nossas, platônicas, eram Postigliones, Bonadias, Miottos... Foi nessa sementeira de idéias fecundas que um Juvenil de Souza cresceu. Passadas as décadas, sem alguns sonhos pueris e lindos mas com outros mais firmes porque temperados na dureza da vida, Santa Rosa continua sendo um pouco minha "Pasárgada", mesmo sem vocação pra ser amigo de rei ou ter a pretensão machista de definir "a mulher que quero na cama que escolherei" (Manuel Bandeira). No curto tempo anual que curto aí, nossa Viterbo funciona, no meu são delírio, como a "terra sem males" dos guaranis e de Pedro Tierra, "angola janga" de Arena conta Zumbi, "tempo feliz" de Vinícius.

E para quem, tolo, pensa que já viveu quase tudo, eis que agora vem uma atração a mais: um concurso literário do qual eu fui, imerecidamente, escolhido patrono! Eu, que criança já implorei pelos amigos pra brincar de vaquinha e caminhãozinho; eu, reprimido de corpo e alma, que fiz minhas primeiras expedições exploradoras na mata da Maria Pia, para relatar depois na praça da Matriz as aventuras que o querido André Baú - que "partiu fora do combinado" (Rolando Boldrin) e foi morar na saudade - não se cansava de repetir; eu, velho "Tinteiro", flamenguista ruim de bola, que já apelei por uma vaga no racha; eu que torcia pro Paulo Emílio (ou o Bituca) não beber além de conta pq. tinha show naquela noite; eu agora, cinquentão pleno, coloco meu desejo e meu pedido em outro plano: senhoras, senhores, idosos, adultos, jovens, crianças, homens, mulheres, transgêneros, escrevei! Escrevei copiosamente, por favor! Comuniquem-se com palavras, já! Coloquem no papel seus sonhos, suas quimeras e dores. Falem do interior. Do interior do interior, do íntimo, da vida das Itamarandibas, "miúda e sem brilho" (Fernando Brant).

A manhã de sábado, dia 22, se Deus quiser, já vai ser de Natal, de renascimento, de celebração da grandiosidade da existência que se manifesta na simples manjedoura, no estábulo. E eu, metido a pastor da noite, quem sabe como mago sem realeza, estarei aí, para me emocionar com o que vocês rascunharam, revisaram, espalharam em prosa e verso. Afinal, "lutar com palavras é a luta mais vã, no entanto luto, mal rompe a manhã!" (Carlos Drummond de Andrade).


(*) Chico Alencar é autor de 25 livros, professor, palpiteiro do programa Comentário Geral (TVE-Brasil), filho da santarosense e nonagenária Nina Garcia de Alencar, santarosense honorário, católico apostólico carioca... e deputado federal do PSOL/RJ até janeiro de 2011).


PS: Chico escreveu este pequeno artigo em homenagem ao Concurso Literário de Santa Rosa do Viterbo, a simpática cidadezinha do interior de São Paulo que aparece no texto apenas como "Santa Rosa".