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Seg, 26 de Novembro de 2007 01:00
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Uma tragédia duplamente anunciada

Franklin de Oliveira Jr.
      
"Vamos comemorar como idiotas
a cada fevereiro e feriado.
todos os mortos nas estradas,(...)
toda a hipocrisia
e toda a afetação
todo roubo e toda indiferença.
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã..."

Renato Russo

No último dia 25/11 ocorreu uma das maiores tragédias do futebol brasileiro. O episódio sucedeu no Estádio Octávio Mangabeira, popularmente chamado de "Fonte Nova", em virtude da existência de um dos mais conhecidos pontos de abastecimento de água quando a cidade ainda era abastecida por fontes. O que era para ser um dia marcante a ser relembrado pelos torcedores baianos, o foi por outras razões bem diferentes, reforçando a versão de que a Bahia só é notícia em caso de desastres ou coisas inusitadas.

Desde aquela noite trágica que vem a público opiniões, editoriais, entrevistas de autoridades, especialistas, testemunhas e familiares das vítimas, dando conta de suas versões do ocorrido. Como não poderiam deixar de ser estas são eivadas ou do justo emocionalismo com as cenas do horror, ou prenhe de preconceitos pebolísticos e até projetos políticos. Esta profusão de opiniões e ideologias, muitas delas provenientes de curiosos do fenômeno futebolístico tão mal analisado pelos nossos intelectuais animou a um torcedor como eu a escrever estas linhas.

Faço inicialmente uma introdução. O título deste comentário não se refere aos antecedentes longínquos da tragédia, anotados fartamente pela mídia local e nacional. Esta já observou-se alguns conflitos anteriormente ocorridos no mesmo estádio, e resoluções do Ministério Público interditando esta praça de esportes. Não podia deixar de comentar entretanto, a repetição constante de que o acontecimento se tratou da "maior tragédia do futebol brasileiro". Para isto relembro de um fato que até agora tem sido esquecido, de que foi exatamente na inauguração do segundo andar deste estádio, no início dos anos 70, e com a anunciada presença do ditador Garrastazu Médici, onde morreram ou ficaram feridas centenas de pessoas durante o jogo Vitória X Grêmio. Na época especulou-se bastante em relação ao verdadeiro número de vítimas (foram divulgadas apenas 4!!) mas pouco foi apurado. Entendo desta maneira o ato falho de "maior tragédia" como uma penitência em relação ao passado.
Mas o nosso comentário não pretende se prender a fatos passados mas levantar outros fatos, que antecederam em pouco tempo a tragédia, e que podem nos ajudar a traçar seu cenário. Tratam-se respectivamente: a) da repercussão do anúncio de que uma das sub-sedes da Copa do Mundo será na Bahia; b)do amadurecimento do calendário e da forma de disputa do Campeonato Brasileiro que levou a volta do público ao nosso futebol; c)da recuperação dos nossos representantes acendendo a autoestima dos seus torcedores; d)e da ação de uma série de atores públicos e privados nos dias que antecederam o jogo Bahia X Vila Nova.

O amadurecimento de um campeonato

Com o "país do futebol" reduzido ao papel de revelar jogadores para o mercado europeu e a CBF a disputar permanente a integridade de seus torneios com organizações civis, o Campeonato Brasileiro levou certo tempo para maturar e comprometer (quase)todos os clubes na fórmula atual de disputa. Esta prevê 3 divisões (apelidadas eufemísticamente de "séries") onde se determina que os 4 primeiros colocados serão os representantes do país na Libertadores, outros 6 vão para a Copa Americana e os 4 últimos se submetem ao descenso de divisão, a exemplo do que ocorre nas demais. Uma vez entrado em desuso a "virada de mesa", acomodado os interesses entre os grandes personagens(a mídia, os clubes, os empresários do futebol e a burocracia da CBF), o "produto" Campeonato Brasileiro começou a se firmar. 2007 marca o momento mais alto desta afirmação onde, mesmo com o São Paulo colocando diversos pontos de vantagem, o torneio foi um sucesso.

Não se deve porém mitificar esses resultados. Há ainda muito a resolver para que esta vitória seja consolidada. O processo de profissionalização do futebol é incompatível com a cota baixíssima paga pelas emissoras de TV aos clubes. A sobrevivência da burocracia da CBF com estranhos resultados – ao arrepio do que acontece nos demais países- continua mantendo os clubes famosos na Primeira Divisão. A onda de vendas de jogadores brasileiros que ocorre entre o 1º e o 2º semestre divide o Campeonato Brasileiro em antes e durante as temporadas da Europa.

Não há entretanto, como deixar de verificar que, a partir de outubro, quando o torneio entrou na reta final da 2ª. e da 3ª, divisão (mesmo com toda a pouca atenção que recebem da grande mídia) e, na 1ª.divisão, com a luta de "vida e morte "de grande clubes brasileiros pelas vagas atrás referidas, o povo encheu as praças esportivas como há muito tempo não se via. Esse fenômeno fez com que os atuais estádios, construídos em sua grande maioria nos anos 1950/1970, parecessem acanhados ganhando intensidade nos momentos de decisão, a exemplo de Flamengo X Atlético Paranaense, Goiais X Corintians, Vitória X Remo e Bahia x Vila Nova. ..

Estas questões no entanto, iria tomar cores estaduais e o viés dos interesses dos diversos grupos sociais. No caso de Salvador, onde suas elites permanecem profundamente divididas na fase pós-carlista, um acontecimento desta magnitude – com cerca de 150.000 pessoas(5% da população) em uma semana acorrendo ao "Barradão" e a "Fonte Nova" – se cercou de ares dramáticos.

Preparando a tragédia

Mas no caso de Salvador as coisas não aconteceram nem no mesmo ritmo, nem na mesma dimensão de outros centros. O tradicional gosto do baiano por futebol havia sido trocado por uma baixa estima pebolística. Se já na virada dos anos 90 o público começou a decrescer perante os maus resultados, que mostravam que os resultados de 1988(campeonato para o Bahia) e 1993(vicecampeonato para o Vitória) não mais se repetiriam. O processo ganharia ainda maior relêvo na primeira metade do novo milênio quando os clubes baianos passam a ser eliminados na Copa Brasil por clubes de centros considerados inferiores e, culminando toda esta situação, caem sucessivamente para a 2ª e a 3ª divisão.A perca do tesão foi geral levando a uma parcial substituição de dirigentes e a adoção alguns novos métodos de gestão desses clubes.

Durante o próprio Campeonato Brasileiro, na 2ª e na 3ª divisão, o público não retornou imediatamente. Precisou ver para crer. Basta se ver a média de 13.000 pessoas nos jogos do Vitória durante boa parte do torneio e os 8.000 torcedores presentes no jogo decisivo da classificação do Bahia contra o Fast Clube. Durante ¾ desses torneios esteve muito aquém ao esperado. Três fatores foram decisivos para a atual etapa: a) a entrada em cena dos efeitos ideológicos do projeto Copa do Mundo em 2014 na Bahia; b) a mostra de capacidade do Vitória ganhar fora fazendo acreditar na possibilidade deste subir para a 1ª divisão; c) o resultado "milagroso" do Bahia contra o Fast Clube inserindo-o numa fase final onde metade dos clubes seriam classificados para a 2ª divisão.

Montado o cenário só resta o comportamento dos atores sociais, quando se verificam formas peculiares de encarar as classes populares, a permanência da atividade cambista, o calendário eleitoral, a concorrência midiática, a disputa de grupos no EC Bahia e de espaço no mercado artístico, entre outros. Aqui ocorreu de tudo, onde os interesses de um e de outro se sobrepôem a inteligência.

A mídia colocou logo em evidência a enchente dos estádios. Contribuiu para a sua intensificação destinando grande parte de suas páginas e noticiários para a cobertura do futebol local. No entanto continuou utilizando aspectos míticos e desiguais no tratamento da informação. Veículos e programas menos consolidados, sob a tirania dos IBOPEs, assim como ignoram os clubes do interior e os antigos e tradicionais de Salvador, deixaram antever preferências e motivações pessoais no tratamento desigual dos nossos dois maiores clubes. Ao desconhecer a prática de divulgação rebaixada de público que ocorre no "Barradão", tiveram dificuldade de perceber o que aconteceria no jogo Bahia X Vila Nova já desenhado no "Barradão" na semana anterior. Ao estimular o mito da invencível torcida não chamou a atenção para o fato de que foram os cambistas quem realmente havia esgotado os ingressos no primeiro dia de vendas aquela partida.

Oito dias antes desse jogo compareci a Vitória X Remo e pude bem apreciar este fenômeno que passou despercebido a esta imprensa: o de que o povo, que vinha sofrendo há 3 anos queria ver a última partida, aquela que iria levar o seus clube a subir de divisão. Eu também fui atingido por este sentimento que, já na terça feira, havia me levado a air correndo no fim de aula da UCSal para chegar ao estádio numa Avenida Paralela onde aconteceram 4 acidentes, não reclamando de chegar em casa as 1:00 da manhã. .

Se é verdade que cabem apertado no "Barradão" 40.000 pessoas, no jogo Vitória X Remo ali se comprimiam, outras milhares espalhadas pelos morros, nas baixadas, e em todo lugar onde se pudesse "caber gente". Mas o público não se limitava a parte de dentro do estádio. Ficaram milhares de pessoas de fora do estádio sem conseguir entrar. Para conseguir sentar foi um problema. Pior ainda foi a saída do estádio onde não se sente sequer o próprio caminhar. Na ocasião senti o cheiro da tragédia que felizmente não veio! O clima dos torcedores era indescritível, confesso que, como torcedor do Vitória, chorei várias vezes.

Mas ainda falta um fator explicativo, que foi a festa organizada pela diretoria do Bahia que manteve fora do estádio grande quantidade e público atraído pela festa que ao final reforçou os que invadiram o estádio.Esta diretoria, que teve uma trégua da torcida e permaneceu durante todo o campeonato tentando capitalizar a ascensão do clube, organizou uma festa desproporcional a conquista. Vale lembrar que no ano anterior, quando o Vitória ascendeu a 2ª divisão, a festa foi discreta. Esta é explicável somente agora quando está subindo para a 1ª divisão e, dado o perfil deste torneio no Brasil, passará a gozar de status e condições administrativas-políticas-e financeiras especiais.

As perguntas não querem calar. Como, apesar de estarem presentes ao jogo do Bahia várias autoridades públicas, não se aprendeu com a experiência da semana anterior? Como se permitiu que se submetesse os torcedores do clube co-irmão(nem tanto, não vamos exagerar!) a tal vexame? Durante a semana afirmei para quem quisesse ouvir que iria se repetir com o Bahia o que aconteceu com o Vitória. Que iria haver pelo menos 20.000 torcedores.que não conseguiriam entrar. A medida em que se aproximava o jogo fiquei surpreso com a absurda desintonia entre a convocação da imprensa, o clima de animação entre os torcedores do Bahia, e a sensibilidade dos órgãos públicos.

Será que havia algum lugar mais importante em Salvador para a Polícia Militar? Tenho certeza que em 17/11 e 25/11 houve uma trégua nos crimes e violências nos bairros de Salvador, o que interessava era a classificação. Porque se admitiu a continuidade da venda antecipada de ingressos, quando esta atitude já se mostrou um estímulo aos cambistas, aumentando a tensão do jogo? Só para se ter uma idéia um conhecido pagou 30,00 por um ingresso, depois teve este ingresso roubado e ficou preso no transito até o fim do jogo que assistiu pelo rádio fora do estádio. De quem é a responsabilidade pelo ingresso de torcedores no final do segundo tempo? Qual a incidência do estádio ainda mais cheio sobre a tragédia?.

Muitas perguntas e poucas respostas nas entrevistas pós-tragédia. Há autoridades, que agora tentam compensar a sua ausência, reforçando a necessidade de "decidir logo" a reforma ou o fim da Fonte Nova. Certos dirigentes futebolísticos, insensíveis aos acontecimentos, voltando-se para os lauréis da ascensão de divisão. Candidatos as próximas eleições apontam a "responsabilidade dos moinhos de vento". Constitui-se comissões de apuração que, como de hábito, não levarão a nada.

A população de Salvador deve dar uma resposta a esses acontecimentos.É preciso que não se decida o destino da nossa trajetória desportiva sob os holofotes da emoção. Até a tragédia da demolição da Igreja da Sé foi feita com mais vagar nos anos 30. É preciso investigar o "arrombamento" dos portões que, por coincidência só se verificam nos fins dos campeonatos. E, principalmente, é preciso que não se permita que façam carreira os abutres do sangue do povo.

Franklin de Oliveira Jr. é Profesor da UFBA e militante do PSOL
 

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