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Transposição do São Francisco - projeto faraônico. Dep Ivan Valente
Qui, 22 de Outubro de 2009 13:33
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Transposição do Rio São Francisco

Projeto faraônico que não resolve o problema

 

O presidente Lula e sua comitiva visitaram na semana passada as obras da transposição das águas do Rio São Francisco, projeto que prevê a abertura de 720 quilômetros de canais para levar a água do maior rio do Nordeste para áreas de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Com pompa e circunstância, o presidente fez declarações de que o projeto idealizado por dom Pedro II finalmente sairá do papel, para tirar do flagelo da seca 12 milhões de brasileiros que vivem no sertão.

Volta à tona, então, a polêmica em torno dos supostos benefícios que a transposição do Velho Chico poderiam trazer aos nordestinos.

A promessa é que a transposição matará a sede do sertanejo, mas, para se ter uma ideia, apenas 4% da água transposta serão destinados ao consumo humano. A imensa maioria do volume transposto será utilizado para atividades econômicas altamente consumidoras de água – o chamado hidronegócio – como a fruticultura irrigada, a criação de camarão e a siderurgia. Desta forma, transpor o São Francisco, algo que custará mais de R$ 6 bilhões aos cofres públicos, só atenderá a um modelo de desenvolvimento que prioriza as grandes empreiteiras e o agronegócio exportador, e que aponta para ações de privatização e mercantilização da água, um direito fundamental que precisa ser garantido à população do semiárido.

Outro problema do projeto são os impactos ambientais e sociais de uma obra como esta. O presidente Lula anunciou a recuperação das margens do rio e das matas ciliares, mas segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco, existe muito dinheiro orçado para a revitalização, mas sem uma implementação das ações que seriam de fato necessárias. As ações em andamento tratam do esgotamento sanitário e do saneamento ambiental, mas a questão da diminuição da vazão do rio, por exemplo, não foi estudada. Nos últimos 50 anos, o fluxo da água do São Francisco já diminuiu 35%. Os estudos de impacto ambiental foram feitos nas bacias que vão receber as águas, mas não nas regiões de onde elas serão transpostas. Uma série de procedimentos previstos na legislação para o licenciamento ambiental também foram ignorados.

As obras em andamento trarão um impacto tão grande ao meio ambiente que levaram a inúmeras ações na Justiça movidas pelo Ministério Público federal e estadual de diferentes estados, além de ações do movimento ambientalista e de organizações de defesa do Rio São Francisco. Segundo a Promotoria de Justiça do Rio São Francisco, os estudos realizados para licenciamento ambiental mostraram impactos reais e negativos, físicos e antropológicos na região afetada pela transposição.

Nas comunidades indígenas, o impacto será grande. Por isso, a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo, junto com outras entidades, está pressionando o Supremo Tribunal Federal a julgar as ações pendentes contra o projeto, entre elas uma ação direta de inconstitucionalidade.

Segundo a Constituição Federal, a implantação de empreendimentos em terras indígenas requer uma consulta prévia ao Congresso Nacional. As obras da transposição implementadas pelo Exército ignoraram esta regra e 33 tribos indígenas foram afetadas, principalmente os Truká, os Tumbalalá, os Pipipã e os Kambiwá.

Por tudo isso, ressaltamos a importância da luta de dom Cappio, profundo conhecedor da realidade local, e seu papel, em conjunto com a Comissão Pastoral da Terra e outras entidades, no questionamento do projeto, lembrando que o povo do semiárido e o próprio Estado brasileiro já desenvolveram alternativas menos degradantes e custosas à transposição. Há três anos, a Agência Nacional de Águas elaborou o Atlas do Nordeste, que prevê o atendimento de nove estados, com um alcance social maior e custo menor. Pelo Atlas, 35 milhões de nordestinos em 1.350 municípios seriam abastecidos a um custo de R$ 3,5 bilhões. Fora das cidades, o investimento deve ser feito em tecnologias sociais alternativas, como as desenvolvidas pela Articulação do Semiárido (ASA), que defende a construção de 1 milhão de cisternas para atender às áreas mais áridas e isoladas da região.

Essas obras não estão previstas no PAC, simplesmente porque não atendem aos setores historicamente enriquecidos pela chamada indústria da seca. O Brasil não precisa de novos projetos que tragam ainda mais benefícios às oligarquias locais.

Precisa enfrentar o problema da pobreza no Nordeste garantindo a segurança hídrica de seus habitantes e as condições para a real emancipação de seu povo. E isso o projeto faraônico da transposição do Rio São Francisco está longe de proporcionar.

Para se ter uma ideia, apenas 4% da água transposta serão destinados ao consumo humano.

Artigo do deputado federal Ivan Valente publicado no Jornal do Brasil do dia 19 de outubro.

Última atualização em Qua, 30 de Dezembro de 2009 13:36